
O escritor suíço radicado no Reino Unido, Alain De Botton, acaba de lançar o livro Os Prazeres de desprazeres do trabalho (Ed.Rocco). Em entrevista ao repóter Fernando Duarte, do jornal O Globo, me chamou a atenção algumas declarações:
"Temos grandes expectativas de que precisamos ser felizes trabalhando e que o trabalho deve estar no centro de nossas vidas e aspirações. A primeira pergunta que fazemos para novos conhecidos não é de onde vem, mas sim o que eles fazem."
"Quando não estamos felizes no trabalho, precisamos separar nosso valor do tipo de trabalho que fazemos."
"Aristóteles, por exemplo, já dizia que ninguém poderia ser livre, diante da obrigação de garantir o próprio sustento."
"Defendo o ponto de vista de que é preciso dizer verdades feias, pois as pessoas podem sentir menos isoladas com seus problemas. É muito fácil sentir que somos a única pessoa aborrecida com nosso trabalho, mas meu livro mostra o quão comum tal situação é."
"Muitos de nós caem de paraquedas em empregos que não necessariamente requerem nossa preciosa habilidade."
"Esse termo (vocação) surgiu num contexto cristão durante a Idade Média, mas uma versão secularizada sobreviveu e nos tortura com a expectativa de que o sentido da vida poderá num certo ponto ser revelado de forma decisiva (...). Não é normal sabermos o que queremos (profissionalmente). Isso é um raro feito psicológico."
O próprio escritor, conhecido como uma pessoa que aborda as questões entre o sonho e a vida prática, sonhava em ser cineasta. Estou ciente que grande parte dos meus leitores ainda é jovem, portanto, talvez ainda não esteja no mercado de trabalho, nem preocupada com a subsistência e compromissos com contas. Mas refletindo sobre o que discorreu o De Botton, penso que ele tem razão em levantar uma questão que tanto nos afeta.
Damos bastante importância ao trabalho, à profissão que iremos abraçar. É como ir atrás do sonho, da busca da realização profissional e felicidade ainda que sem a garantia de conseguir alcançá-los. Há pouco tempo saiu em uma revista, não lembro se era Época, Veja ou similar, uma pesquisa mostrando que grande parte das pessoas está insatisfeita no trabalho. Lembro que havia uma mulher num cargo que eu gostaria de ter e brinquei dizendo: "vou perguntar se ela quer trocar comigo". Por outro lado, eu exerço uma função que algumas pessoas gostariam de fazer. Já me disseram: "Puxa, seu trabalho é tão interessante, você trabalha com cinema, fala com atores, conhece cineastas, vê filmes antes de todo mundo".
Eu não odeio o meu trabalho, mas como já dizia Aristóteles, não me sinto totalmente livre porque preciso pagar minhas contas. Assim como disse De Botton, eu caí de paraquedas nesse emprego e penso que ele não explora todo o meu potencial, sobretudo, o maior dom que é o de escrever. Adoraria ser uma Martha Medeiros da vida. Mas viver de literatura é para poucos, então, procuro exercer a vocação de outra maneira. Por exemplo, assumindo atividades que tenham a ver com a minha formação, como edição de fotos e de textos do site da empresa. E escrever artigos no Papo Calcinha, que me proporciona prazer além de me exercitar na profissão.
A parte mais difícil para todos – penso eu – é nos dar valor como ser humano, ainda que não estejamos completamente satisfeitos no trabalho. Sabem por que? Por que determinados ofícios são muito glamourizados, como o de pintores, escultores, cantores, bailarinas, chefes de cozinha, apresentadores de televisão, atores... Como se eles fossem 100% felizes em seus empregos. Duvido que eles também não se aborreçam com contratos, horas seguidas gravando novelas, com colegas invejosos de plantão para puxar-lhes o tapete, patrões mesquinhos e grosseiros. A cantora Marina Lima já caiu em depressão, a atriz Leandra Leal uma vez declarou odiar o papel na novela, só para citar dois exemplos. Eu conheço um ator que ingressou na profissão porque os pais são atores famosos, ele cresceu no ambiente artístico, conhece todo os "cabeças" do ramo, o caminho estava aberto, o emprego garantido. Mas o sonho dele mesmo é viver de música.
Tudo isso porque "temos grandes expectativas de que precisamos ser felizes trabalhando e que o trabalho deve estar no centro de nossas vidas e aspirações", como disse De Botton. Mas é possível ser de outro jeito?

"Tente ser uma pessoa de valor, não de sucesso" – Albert Einstein
REFLETINDO...
Manual para subir montanhas (continuação)

(Do livro Ser como rio que flui – Pensamentos e reflexões, Paulo Coelho, Ed. Agir)
"Respeite sua alma: não fique repetindo o tempo todo 'eu vou conseguir'. Sua alma já sabe isso, o que ela precisa é usar a longa caminhada para poder crescer, estender-se pelo horizonte, atingir o céu. Uma obsessão não ajuda em nada a busca do seu objetivo, e termina por tirar o prazer da escalada. Mas atenção: tampouco fique repetindo 'é mais difícil do que eu pensava', porque isso o fará perder a força interior"
VÍDEO DO DIA: O vídeo de hoje é a cara do Papo Calcinha, ou seja, ele reflete o que eu busco.
Vamos renovar a espécie humana?
Vamos investir na alma?
Espero que todos gostem. Tenham um ótimo fim de semana! Um beijo!



























